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Letras no Divã · 8 de julho de 2026

Sobre a ancoragem

Há fases da vida em que algo que nos sustentava deixa de estar ali — uma mudança, o fim de uma relação, uma rotina que se desfez — e o que sobra é a sensação de não saber bem onde se firmar.

Penso nesses momentos a partir da imagem da âncora. Ela não existe para manter o barco parado, mas para que ele resista à correnteza sem ser arrastado para qualquer lugar. É a firmeza de um ponto fixo que torna o movimento possível.

René Kaës chama isso de étayage — apoio, em português —, o modo como o psiquismo se sustenta fora de si mesmo: no corpo, no outro, nos grupos aos quais pertencemos. Somos, para ele, sujeitos do vínculo — feitos dos laços que tecemos e que também nos tecem. As âncoras são muitas: os afetos que nos reconhecem, os ritmos do corpo, os gestos repetidos de um dia comum, um trabalho com sentido, as histórias que herdamos. Quando uma delas se solta, aparece o desamparo.

A psicoterapia pode ser um apoio a mais nesse conjunto — um vínculo onde é possível reconhecer o que se soltou e, aos poucos, encontrar outros pontos de sustentação.

Bibiana Vencato Sieburger
Bibiana Vencato Sieburger
Psicóloga clínica · CRP 07/30109