O tempo na análise
Freud chamou de trabalho de elaboração aquilo que a mente precisa fazer com o que ainda não foi digerido: uma perda, um susto, um afeto que não coube em nenhuma explicação na hora em que aconteceu. Esse trabalho não obedece ao relógio nem ao calendário. Ele segue o tempo do inconsciente, que é outro tempo, não linear como o do relógio.
A pressa costuma aparecer quando queremos pular essa etapa: sair do luto antes de ter chorado o suficiente, entender o motivo de uma dor antes mesmo de ter sentido ela por completo. É uma tentativa legítima de alívio, mas o que não é elaborado não desaparece, só fica à espreita, pronto para voltar em outro momento, de outra forma.
Por isso a análise não trabalha para resolver rápido. Ela oferece um espaço para pensar sobre o que se sente, acompanhado, sem pressa de explicar. E quando alguma coisa realmente se transforma, quase nunca é de uma vez: aparece como um jeito diferente de sentir diante do mesmo problema de sempre.
Tem um trecho da música "Paciência", do Lenine, de que gosto muito para pensar nisso: enquanto o tempo acelera e pede pressa, ele se recusa, faz hora, vai na valsa. É mais ou menos essa a proposta de uma análise: apressar o passo não abrevia o caminho, só faz a gente passar por ele sem realmente atravessá-lo.
Psicóloga clínica · CRP 07/30109