O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu
Li essa frase e fiquei um tempo com ela, tentando alcançar o que ela queria dizer. Talvez porque uma frase, às vezes, chegue antes do seu sentido: ela se instala primeiro, e só depois vem a explicação, se é que vem. Pensei nela em paralelo ao início de uma análise, porque ali também a gente chega antes de entender por quê.
O céu de Galileu é um céu que se resolve: órbitas calculadas, leis que não mudam de ideia. Um céu de resposta. O céu de Ícaro é outro. Nele se voa sem garantia, a cera pode derreter antes de qualquer certeza sobre o motivo do voo. A poesia está no que não se resolve, no que continua pedindo para ser pensado.
Na clínica, também se quer chegar depressa à resposta, como se o trabalho fosse encontrar um porquê definitivo e, encontrado, dar o assunto por encerrado. Mas talvez a psicanálise sirva para o contrário: não fechar o sentido, e sim ampliá-lo. Ampliar sentido não é tarefa rápida; pede tempo, às vezes o de uma análise inteira.
Até agora não sei dizer por que gosto tanto dessa frase. Talvez não exista um único motivo, e talvez nem precise existir. Assim como no tratamento, em que a pessoa vai desvendando, vai pensando, sempre no gerúndio: um processo que não fecha numa resposta, mas segue se abrindo, até que a pessoa consiga fabricar as próprias asas e descobrir o que compõe o seu céu.
Psicóloga clínica · CRP 07/30109